sexta-feira, 1 de abril de 2011

Filosofia - Spinoza

O poeta e a palavra

O poeta e a palavra

à Banda Rephorma Geral

Rápido, oportuno.
Ninguém nunca se lembra de olhar,
mas ele parece estar ali:
pronto para a palavra,
pronto para a mensagem,
pronto para transmitir um recado para cada coração.

O poeta fast food.
O poeta just in time.
O poeta plug and play.

Porém, a palavra se revolta
-- não se vê prêt-à-porter.
Se rebela, entra em greve, sai de férias.

A palavra se nega ao poeta
como a cortesã que resiste ao cliente.

Eles se atracam, se insultam
-- discutem a relação.
Cobram fidelidade,
amor eterno
-- amizade ao menos.

E nada.

O poeta descobre-se solitário,
sem poderes, sem sinônimos, sem papel
-- mudo, em sua caneta.

Descobre-se lavrador
tendo que minerar cada pequena frase,
escolhendo, entre milhões,
a palavra pedra preciosa do poema.

Precisa cortejá-la novamente,
jurando-lhe renovado amor,
crendo-a única,
incomparável,
insubstituível.

Rara.

Então a palavra lhe sorri, outra vez convencida.
Diminui seu dengo, aquieta-se.
Se apresenta dócil
diante do bardo.

E se faz poesia.

Jorge Alves de Lima
São Paulo, 30/03/2011